A Inspiração por Trás do Musical
A ideia para “Susi, o Musical” surgiu de forma despretensiosa em 2023, durante uma conversa entre o diretor Ulysses Cruz e a atriz e dramaturga Mara Carvalho. Após assistirem ao filme da Barbie, Cruz brincou com a possibilidade de uma versão teatral. Mara, lembrando dos altos custos de direitos autorais da Barbie, propôs uma alternativa: um musical sobre a Susi, a boneca brasileira que competiu diretamente com a sua rival americana.
Animada com a ideia, Mara Carvalho iniciou uma profunda pesquisa, incluindo entrevistas com colecionadores, para desvendar a história por trás da boneca. O resultado é um espetáculo que mergulha em temas como paixão, frustração e disputa econômica, estreando no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. “O texto trata da ditadura da beleza. As bonecas antigamente eram bebês para estimular a maternidade nas meninas. Susi chega e muda tudo porque já é uma mulher, uma fashion doll”, explica Carvalho, que assina o texto e conta com músicas de Thiago Gimenes e a direção de Ulysses Cruz.
Susi: Um Ícone Brasileiro contra a Dominação Americana
Lançada pela Estrela Brinquedos em 1966, a Susi foi uma resposta direta à Barbie, da Mattel, que dominava o mercado internacional. Na época, o Brasil possuía leis de importação restritivas, o que impedia a comercialização da boneca americana. Susi, com suas pernas alongadas e um biotipo mais próximo ao das meninas brasileiras, rapidamente conquistou o público infantil e juvenil, estabelecendo uma forte rivalidade com a Barbie.
“A frase que mais ouvi durante as pesquisas era: ‘quem tem Susi não tem Barbie'”, relata Mara Carvalho. O musical aborda a complexa disputa econômica entre as duas bonecas. A Barbie só chegou oficialmente ao Brasil em 1982, fabricada pela Estrela. Por três anos, as duas dividiram as prateleiras, até que a Mattel propôs um acordo: a Estrela retiraria a Susi de circulação em troca de apoio para entrar no mercado norte-americano. A Estrela aceitou, e Susi ficou 12 anos fora de produção. Quando o mercado brasileiro se abriu às importações em 1990, a Mattel rompeu o contrato e passou a importar a Barbie diretamente, ofuscando o retorno da Susi em 1996.
Um Musical com Conteúdo e Identidade
“Como nosso interesse não era o escapismo ou um entretenimento raso, que seria confundido com um produto infantil, decidimos fazer um family show com conteúdo, que não fosse só uma brincadeira”, afirma Ulysses Cruz. O musical é estrelado pela cantora e atriz Priscilla, que dá vida à Susi. A boneca, ao surgir, modificou o comportamento juvenil, especialmente das meninas, que se viam representadas em seus desfiles de moda, aparições em programas de TV e campanhas educativas.
A trama acompanha Victor, um jovem com talento para design de moda reprimido pelo bullying. Ao encontrar uma caixa com a Susi no porão, ele a transforma em uma amiga imaginária. “Surge um espelhamento entre os dois porque ela precisa descobrir a modernidade (afinal, ficou doze anos afastada) e voltar para as prateleiras, e ele busca recuperar seu lugar como estilista”, explica Thiago Gimenes. A trilha sonora, composta por Gimenes, transita por diversos estilos musicais, incluindo pop, rock, MPB e rap, fundindo o eletrônico e o acústico, o antigo e o novo.
Representações e Reflexões em Cena
O musical apresenta não apenas a Susi principal, mas também variações como Susi Safari, Susi Fotógrafa e Susi Copa do Mundo, remetendo a grupos femininos como Rouge e Spice Girls. A boneca americana aparece como Bárbara, uma figura caricata que representa a influência dos padrões estéticos impostos pela internet e redes sociais. Bruna Guerin, intérprete de Bárbara, destaca que a personagem não é a vilã, mas sim uma representação de uma visão distinta da vida, mais superficial e obcecada pela autoexposição.
Além das bonecas, o espetáculo inclui personagens como Beto, inspirado em Roberto Carlos, e Kevin, o companheiro de Bárbara. Há também Falcon, o primeiro boneco masculino, que surge para inspirar coragem em Victor. A montagem explora a inversão de valores e a busca por identidade, convidando o público a refletir sobre a ditadura da beleza e a importância de valorizar a individualidade em um mundo cada vez mais padronizado.
