De ‘Frankenstein’ a ‘Nosferatu’, a estética gótica ressurge em tempos de incerteza, explorando a beleza sombria das ruínas do poder e a complexidade do luto.
A estética gótica, com sua atmosfera sombria, ruínas imponentes e conflitos profundos, continua a cativar o público e a encontrar ressonância no cinema contemporâneo. O recente sucesso de “Frankenstein” (2025), de Guillermo del Toro, indicado a nove Oscars, é um testemunho da vitalidade deste gênero que, nascido no século XVIII, parece especialmente relevante em tempos de crise.
As Raízes Góticas: Decadência e Poder em Colapso
O gótico surgiu oficialmente em 1764 com “O Castelo de Otranto”, de Horace Walpole, estabelecendo elementos como castelos medievais, paisagens lúgubres e dramas familiares. Essa estética floresceu em um período de profundas transformações sociais e políticas na Europa, marcadas pelo declínio do poder aristocrático e pela ascensão de novas ideologias. Como aponta David Punter, especialista em cultura gótica, o gênero se fascina pela “decadência do poder e pelo espetáculo de seus restos”, refletindo as ansiedades culturais de cada época.
O Luto como Estética: A Era Vitoriana e o Gótico na Moda
A Era Vitoriana intensificou a conexão entre o gótico e a expressão visual da perda. O rigoroso código de vestimenta do luto, especialmente após a morte do Príncipe Albert, transformou o preto em uma declaração estética. Vestidos de luto profundo, com tecidos foscos e silhuetas pesadas, criavam uma aura espectral. O meio-luto, com tons de cinza e lilás, marcava uma transição sutil entre a vida e a morte, demonstrando como a moda podia comunicar emoções complexas sem palavras.
O Gótico no Cinema: Luxo em Confronto com a Ruína
No cinema, a dimensão estética do gótico ganha novas camadas. Em “Frankenstein” de Del Toro, o trabalho da figurinista Kate Hawley e da diretora de arte Tamara Deverell resgata referências icônicas, como o vestido de noiva de “A Noiva de Frankenstein” (1935), enquanto constrói visualmente a dualidade entre a ascensão do criador e a queda diante de sua criatura. A maquiagem e o cabelo também são cruciais, com a caracterização do monstro, interpretado por Jacob Elordi, reforçando a ideia de que “o corpo do monstro representa a ansiedade de uma sociedade confrontada com suas próprias criações”, como afirma Anne K. Mellor.
O Ciclo Gótico: Ressurgimento em Tempos de Crise
“Frankenstein” é apenas um exemplo da contínua relevância do gótico. Produções como “Nosferatu” (2024) de Robert Eggers e “O Morro dos Ventos Uivantes” (2026) de Emerald Fennell demonstram a adaptação do gênero para novas gerações. A história do gótico é marcada por seu ressurgimento em períodos de instabilidade: o primeiro boom coincidiu com o Iluminismo e as Revoluções Francesa e Industrial; o cinema dos anos 1920 e 1930 refletiu o trauma da Primeira Guerra Mundial; e o final do século XX viu um revival impulsionado pela Guerra Fria. Atualmente, em um cenário global de incertezas, o gótico, com seus castelos em ruínas e figuras sombrias, continua a funcionar como uma poderosa metáfora para um mundo em transformação, provando que o luxo e a decadência sempre andaram de mãos dadas em sua estética atemporal.
