Em um cenário onde a inovação avança a passos largos, observamos um paradoxo: a crescente busca por elementos do passado, seja pela compra de discos antigos ou pela ambientação de restaurantes com a estética dos anos 90. Essa onda de nostalgia generalizada tem sido interpretada como um refúgio diante de uma realidade marcada pela solidão e pelo esgotamento profissional (burnout). Mas qual o real significado por trás desse movimento?
A Busca Pela Significância em Tempos de Incerteza
Jennifer B. Wallace, autora do livro “Mattering: The Secret to a Life of Deep Connection and Purpose” e fundadora do The Mattering Institute, aponta que essa tendência é, na verdade, uma tentativa de resgatar um sentimento cada vez mais escasso: o de se sentir importante. Em uma palestra no Hilton Hotel, Wallace alertou para os desafios que se avizinham, especialmente com as previsões de que a automação pode tornar os humanos menos necessários em diversas tarefas.
Os Quatro Pilares da Importância Pessoal
Diante desse cenário, a jornalista apresentou quatro ingredientes essenciais para cultivar o senso de importância em todas as esferas da vida:
1. Sentir-se Significante ou Importante
A autenticidade tem se tornado um desafio na cultura contemporânea, pressionada pelas expectativas sociais e, principalmente, pelas redes sociais. O perfeccionismo excessivo mina a vulnerabilidade e dificulta a criação de conexões interpessoais genuínas. Wallace destaca o “beautiful mess effect”, onde tendemos a ver as imperfeições alheias de forma mais positiva do que as nossas. A significância, segundo ela, não reside em grandes feitos, mas nos pequenos gestos cotidianos: um colega que compartilha o lanche favorito, um vizinho que leva uma sopa para um amigo doente.
2. Apreciação
Ter evidências concretas de que nossas ações e quem somos fazem a diferença é crucial. Ambientes de trabalho que não conectam o colaborador à percepção de sua importância sofrem com a queda no engajamento. Sessões de feedback eficazes podem reverter esse quadro, aumentando o engajamento e a retenção de talentos, com reflexos positivos até na vida pessoal. “O que acontece no trabalho não fica no trabalho”, ressalta Wallace, “Quando pessoas se sentem subvalorizadas e invisíveis, o sentimento os segue até em casa”.
3. Preocupação e Interesse
Este pilar se refere à sensação de ter alguém ao lado, oferecendo apoio, como um “cornerman” no boxe. No entanto, Wallace alerta para a perigosa “terceirização” de relações, onde buscamos soluções no mercado antes de amigos, vizinhos ou familiares. Tarefas simples, que poderiam fortalecer laços de interdependência saudável, são delegadas. Acreditar no sucesso do outro, segundo Wallace, gera um sentimento de “extensão do ego”, onde a vitória e o crescimento do outro também se tornam nossos.
4. Sentimento de Dependência Mútua
Observa-se uma diminuição na dependência mútua entre as pessoas e uma menor tolerância a atritos e inconvenientes, que são naturais em qualquer relação comunitária. Relações profundas e saudáveis, conclui Wallace, são construídas sobre a importância, apreciação, preocupação, cuidado e a dependência mútua. Tão fundamental quanto construir esse senso de importância nos outros é reconhecer e se proteger das forças que o corroem.
